ENTREVISTA PARA O PESQUISA MUNDI
Como é possível uma
integração entre professores e bibliotecários na mediação de leitura?
Cabe sempre lembrar que, em termos quantitativos, existe um
grande desequilíbrio entre o número de professores e o número de bibliotecários
trabalhando em nosso país. Além disso, o escopo de atendimento de estudantes
por parte de um professor é quase sempre maior do que o do bibliotecário. Mesmo
considerando tais desnivelamentos, acredito que a integração e a aproximação
desses dois profissionais deveriam acontecer mais intensamente quando das
discussões voltadas ao Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola - no momento
em que o trabalho pedagógico se estende para fora das paredes da sala de aula e
penetra naqueles espaços onde as buscas por informação, as pesquisas de fontes
diversas, as seleções de textos para o cumprimento de diferentes finalidades da
leitura, etc. são contempladas como possibilidades concretas. Daí eu defender a
ideia de que a dinamização, utilização, abastecimento, equipamentos, etc. de
uma biblioteca escola deva ser um componente de destaque no referido
Planejamento, juntando dinamicamente os professores das várias disciplinas com
o(s) bibliotecário(s); dessa forma e bem sublinhado no PPP, a biblioteca deixa
de ser um apêndice ou um órgão apenas agregado no ambiente escolar, transformando-se
num componente ativo das dinâmicas de aprendizagem, no horizonte daquilo que a
escola pretende ou almeja como finalidades primeiras para as práticas de
leitura dos estudantes. Cabe sempre lembrar que existe uma dimensão
biblioteconômica no trabalho pedagógico (do professor) e uma dimensão
pedagógica no trabalho biblioteconômico (do bibliotecário) - ambos os
profissionais trabalham ou deveriam trabalhar com o mesmo objeto, ou seja, o
ato de ler - ato este que é um dos pilares do letramento dos estudantes e,
talvez, de toda a aprendizagem, de todo o desempenho decorrente das atividades
escolares.
Pesquisa recente aponta
que quase metade dos docentes não leem livros em seu tempo livre, e que
provavelmente esta mesma realidade se aplica aos bibliotecários. Existe alguma
perspectiva para que este cenário chocante mude, já que estes educadores têm certa
responsabilidade em transferir o gosto pela leitura aos alunos?
Sem querer lhe corrigir, relembro que educadores e bibliotecários
não têm "certa" responsabilidade, mas sim uma "grande dose"
de responsabilidade no que se refere à formação de leitores em qualquer
sociedade letrada. Isto porque, em termos de responsabilidade social, esses
dois profissionais são - ou deveriam ser - os mediadores privilegiados na
introdução das novas gerações ao mundo da escrita e na condução das mesmas para
que, através do trabalho pedagógico, elas se ambientem e se movimentem
socialmente através do manejo de todos os bens que são próprios desse universo,
de um simples anúncio de jornal às usufruição das obras literárias mais densas
e sofisticadas. Particularmente, tendo em mim encarnado, há bastante tempo, o
valor “esperança”, acredito que a sociedade, ao tomar consciência da divisão
social do trabalho e da qualificação dos profissionais, saberá exigir mais
qualidade da escola e, mais especificamente, daqueles mediadores cuja
responsabilidade ou função é ensinar as competências, habilidades, destrezas,
etc. que são necessárias ao manejo da escrita, em termos de recepção e
produção.
Em sua opinião, há uma idade certa
para os estudantes serem apresentados às novas tecnologias?
Tenho combatido a adultização das crianças pela sua sujeição
às atividades reclusas das escolas. A sociedade da pressa e da velocidade
deseja que a criança seja introduzida a atividades de aprendizagens
escolarizadas cada vez mais cedo, sacrificando principalmente o conhecimento do
mundo pelo brincar, pelo apalpar os objetos concretos e pelo interagir com os
seus grupos etários de referência. Além disso, sou contrário a qualquer
"babá eletrônica", isto é, tentar substituir o aconchego, a
convivência e o diálogo familiar por uma tecnologia da moda (TV, computador,
etc.). Portanto, garantidos, primeiro, o direito da criança em viver
intensamente a sua infância e, segundo, o amor bem cultivado no seu contexto
familiar, creio que a idade mais adequada para o usufruto das novas tecnologias
pelas crianças será uma decorrência natural, sem que uma coisa seja uma
substituição ou uma sublimação da outra. Também acho que máquina nenhuma é
capaz de ensinar valores, igual aos seres humanos de carne e osso.
O que podemos fazer,
para ter uma leitura crítica quando o recurso utilizado é a internet?
A leitura crítica, enquanto uma constelação de atos da
consciência e de competências do leitor, pode ser utilizada junto a qualquer
veículo de comunicação e/ou suporte de texto. Dessa forma, se bem aprendida
como decorrência de ações de várias instâncias (família, escola, etc.), a
leitura crítica poderá se aplicada à análise de todas as mensagens que circulam
pelas veias de uma sociedade. Dessa forma, posso ler criticamente as mensagens
virtuais da internet, sabendo separar o lixo que corre por através desse
veículo; posso ler uma telenovela, sabendo quando ela deixa de atender aos
requisitos da fantasia e passa a servir à ao mercado e à alienação; posso ler
um artigo de jornal, sabendo distinguir fato de opinião e assim por diante. O
importante, me parece, é que a leitura crítica seja objetivamente ensinada
pelos organismos ligados à educação e recorrentemente praticada diante dos
conteúdos que circulam pelos meios de comunicação. E sempre é bom lembrar que a
crítica é, na verdade, um modo de ser no mundo - um modo de ser das pessoas que
combatem as predeterminações, as verdades únicas, os desmandos, os processos de
imbecilização em massa, etc. e procuram construir mundos saudáveis,
democráticos, humanizados, civilizados, etc.
O que o professor acessa e recomenda na
internet?
Confesso que a internet me serve hoje a diferentes propósitos
e múltiplas finalidades: desde um número de telefone (que eu anteriormente
consultava numa lista impressa, construída em ordem alfabética) até um percurso
de viagem (que eu anteriormente consultava em mapas rodoviários e similares).
Acho que as consultas permitidas pelo advento da internet são exponenciais,
sendo difícil estabelecer os seus limites ou as suas fronteiras nos dias de
hoje. Participo de algumas redes (Twitter, Facebook, principalmente) para
facilitar a minha comunicação com amigos e familiares e através das mesmas
divulgo algumas das minhas produções; o e-mail e o Skype substituíram quase 100
por cento dos meus telefonemas; fóruns de pesca esportiva me permitem o diálogo
com amigos de caravana. E por aí vai! O que recomendar na internet? Realmente
fica difícil dizer mesmo porque as minhas navegações atendem a um rol amplo de motivações,
que vão da pesquisa para a produção de novos conhecimentos até os sites de
guitarra-jazz em rádios norte-americanas. Além disso, venho mantendo dois
potentes sites: www.leituracritica.com.br e www.pescarte.com.br , com as suas
respectivas revistas eletrônicas, que me dão um trabalhão danado para manter a
periodicidade. Enfim, preferiria recomendar com base no critério da sazonalidade
ou então no critério da área de conteúdo, sendo que hoje existe um conjunto
imenso de excelentes sites que tratam das minhas paixões pessoais: a leitura,
os livros, a pesca recreativa e a música. A minha lista de
"preferidos" não é nada pequena e é sempre renovada à luz dos
critérios acima citados.
Como o professor avalia a chegada do tablets
às salas de aula?
No geral, sou a favor de todo e qualquer ferramenta que venha
a somar valor ou qualidade ao processo de ensino-aprendizagem. Nestes termos,
se essa ferramenta não for tomada como um fim em si mesmo ou como um modismo,
mas sim como um instrumento enriquecedor da educação escolarizada, não vejo por
que deva ser barrada ou impedida de ter a sua presença e o seu uso pelos
estudantes numa sala de aula. Dessa forma, que venham os computadores, as
lousas digitais, os tablets, os celulares, etc. para elevar o nível da educação
brasileira, mas sempre como "meios" para a qualificação de todos os processos
relacionados ao ensino-aprendizagem. E devemos cuidar para não cairmos num
neo-tecnicismo, quer dizer num novo tecnicismo, enaltecendo as ferramentas, as
técnicas, os laboratórios de informática, etc., secundarizando ou apagando os
sujeitos que os manipulam e os usam para determinadas finalidades sociais -
vivemos intensamente o tecnicismo na década de 1970 e essa experiência nada melhorou
o trabalho das escolas brasileiras.
O livro digital tem conquistado cada vez mais
leitores no Brasil, como o professor avalia a chegada dos e-readers como o Kobo
e o Kindle?
Cada leitor tem o direito de escolher o suporte de texto que
melhor lhe convier e com o qual se sinta melhor na consecução de suas práticas
de leitura. Confesso que não conheço o Kobo. Comprei um Kindle, mas não me
acostumei com ele e logo o vendi. E confesso também que tenho dificuldade muito
grande para ler textos densos e longos na tela de um e-reader ou mesmo na tela
do meu computador - prefiro o tradicional formato do livro impresso para ler
romances e textos técnicos, inclusive porque gosto de marcar trechos, puxar ideias
nas margens e coisas assim. Entendo que os nativos da internet tenham
desenvolvido novas formas de ler e de interagir com os textos, preferindo
muitas vezes os textos de natureza digital nos suportes que atualmente os acomodam
- respeito essa preferência, pois, para mim, o importante é ler, ler de tudo,
ler sempre, mas textos que valham a pena e somem ao processo de complexificação
da subjetividade do leitor.
O professor lê em formato eletrônico,
aderiu a esta nova prática?
Acho que já respondi na pergunta anterior... Confesso que me
adaptei bem aos textos eletrônicos, mas não consigo ter fluência de leitura com
todos os gêneros de escrita via computador e internet. Ainda gosto de pegar as
páginas impressas do jornal no meu café da manhã, gosto de levar livros
impressos nas minhas viagens, gosto de ler uma receita no velho caderno da
minha avó quando me arrisco numa culinária, mas também gosto de ler as minhas
correspondências no meu Outlook Express, de falar vez ou outra com um amigo via
Facebook ou Skype. Quer dizer, procuro acompanhar a evolução dos tempos, sem
perder o sabor das coisas e as maneiras de ser que valem a pena manter na
tentativa de desenvolver a uma convivência social que seja ao mesmo tempo saudável, prazerosa e
produtiva.
Recentemente o professor lançou uma
editora, a Edições Leitura Crítica. Fale-nos um pouco sobre
Fui Diretor-Executivo da Editora da Unicamp por mais de dois anos: uma experiência que me permitiu conhecer a fundo todas as fases de produção de um livro. Depois que deixei esse cargo e, mais adiante, de ter me aposentado da Unicamp, sempre mantive um desejo de possuir a minha própria uma editora. Três anos atrás me lancei como editor, apresentando as obras editadas pela Leitura Crítica numa livraria acoplada ao Portal Leitura Crítica. Já temos 15 obras editadas e esse trabalho me permite uma ocupação inteligente do meu tempo de aposentado e, ao mesmo, uma colaboração para com o avanço das produções científicas sobre a leitura em nosso país. É uma alegria imensa ver um livro sair do forno, depois de ter passado pelos processos de sua produção e agora prontinho para circular e dinamizar ideias entre os leitores.
Fui Diretor-Executivo da Editora da Unicamp por mais de dois anos: uma experiência que me permitiu conhecer a fundo todas as fases de produção de um livro. Depois que deixei esse cargo e, mais adiante, de ter me aposentado da Unicamp, sempre mantive um desejo de possuir a minha própria uma editora. Três anos atrás me lancei como editor, apresentando as obras editadas pela Leitura Crítica numa livraria acoplada ao Portal Leitura Crítica. Já temos 15 obras editadas e esse trabalho me permite uma ocupação inteligente do meu tempo de aposentado e, ao mesmo, uma colaboração para com o avanço das produções científicas sobre a leitura em nosso país. É uma alegria imensa ver um livro sair do forno, depois de ter passado pelos processos de sua produção e agora prontinho para circular e dinamizar ideias entre os leitores.






