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domingo, 7 de setembro de 2014

ANÁLISE DE TIRINHAS (36) - REPERTÓRIO E O NIVELAMENTO PARA BAIXO


A produção de sentidos nas interações de leitura somente é possível a partir do repertório do leitor. Isto quer dizer que a maior ou menor densidade das ideias resultantes da leitura é uma função direta dos elementos presentes no repertório de experiências  - culturais e linguísticas - do leitor.

A língua inglesa tem uma palavra específica para "repertório", qual seja a palavra "background" (reading background) que, numa tradução linear, significa "o chão anteriormente pisado". Assim, quanto mais amplo esse background mais facilidade o leitor vai encontrar para produzir sentido(s) aos textos. A qualidade e amplitude do background do leitor ainda interfere na velocidade das suas leituras.

Como pensamento e linguagem são os dois lados de uma mesma moeda, o repertório linguístico de uma pessoa é um dos fatores que possibilita o adentramento crítico nos textos para o cumprimento de diferentes finalidades sociais. Daí que um leitor com vasto vocabulário pode vir a ter mais facilidade durante as suas interlocuções de leitura, não precisando empacar a todo o momento a sua leitura a fim de entender as palavras tecidas nos textos.

A tirinha de Xaxado, que abre esta reflexão, mostra muito bem a questão de um repertório limitado para a leitura de bula, exigindo a adequação da linguagem que esse gênero de texto possa ser entendido. A crítica de Marieta é extramente lúcida mesmo porque a tradução ou vulgarização do texto para efeito do seu entendimento gera, ao mesmo tempo, uma questão de nivelamento para baixo do repertório linguístico, colocando Xaxado na condição de "menos esclarecido". Isto também remete a questões atinentes à prática de leitura entre as diferentes classes sociais.

Nada tenho contra a facilitação lexical, sintática ou semântica de textos vários de modo a permitir a sua compreensão pelos leitores. O problema vem à tona quando esse tipo de trabalho passar a ocorrer e a recorrer com frequência no contexto do ensino, instaurando uma rotina de dependência e de morte da autonomia dos leitores no que se refere ao conhecimento e domínio de um léxico mais variado e amplo, que estimule a busca autônoma  pelo significado das palavras que tecem e dão vida aos textos que circulam em sociedade.

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