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quinta-feira, 6 de março de 2014

ANÁLISE DE TIRINHAS (26) - DAS FUNÇÕES DA LEITURA...


O leque de funções da leitura é variado e múltiplo, dependendo das circunstâncias e dos propósitos que movem - ou afetam - a(s) intencionalidade(s) do leitor no momento da sua interação com o texto. Por vezes, essas funções aparecem em grandes categorias: prazer, lazer, conhecimento, crescimento, pesquisa, etc.

Tais funções são vivenciadas pelo leitor ao longo das suas vivências numa determinada sociedade, dentro ou fora da escola. Por exemplo, é fato que na escola se "aprende a ler" através da alfabetização e do letramento, mas, num determinado ponto dessa trajetória, o leitor passa a "ler para aprender" (pesquisar, estudar, coletar informações, etc.), e podemos afirmar que grande parte das aprendizagens escolar tem nas práticas de leitura o seu ponto de partida, de desenvolvimento e/ou de chegada. Nestes termos, vemos que o sucesso na escola depende das leituras realizadas pelos alunos.

Teria também a leitura uma função de paz e silêncio, conforme sinaliza a tirinha de Hagar acima? 

O conto "Continuidade dos Parques" (texto completo abaixo), de Julio Cortázar mostra que essa função - idêntica a uma fuga da realidade - é muitas vezes buscada e concretizada pelos leitores. O leitor se "refugia" no texto, entra na trama pelas portas aberta do enredo e inicia um trabalho de fantasia e vai se distanciando da sua realidade existencial do dia-a-dia. 

O filme A História sem Fim (assista em http://megafilmeshd.net/a-historia-sem-fim/ , produzido a partir de um livro do escritor Michael Ende, trata da mesma temática, agora mostrando um leitor mirim lendo e retornando a um livro infantil no sentido de fugir da sua realidade circundante para acompanhar a saga de um herói. 

Importante é perceber que as práticas de leitura de "paz e silêncio" são capazes de nos fazer sonhar e poder produzir outras visões de mundo pelos caminhos da fantasia. Daí que a leitura da literatura, via seus diferentes gêneros, nos faça não apenas reviver a criança que fomos e que sempre somos, mas também descongelar as estruturas rígidas das nossas visões, possibilitando a criação de outras formas de ser e de existir. 
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Continuidade dos Parques

Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Nessa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranqüilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse , de quando em quando, o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar, linha a linha, daquilo que o rodeava, a sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do mato. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos, o punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer. Já sem olhar, ligados firmemente á tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que o levaria à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.

CORTAZAR, Julio. Final do jogo.
Trad. Remy Gorja Filho.
Rio de Janeiro, Ed. Expressão e Cultura, 1971.









2 comentários:

Therezinha Veronica disse...

O conto de Julio Cortazar, tão pequeno, é uma viagem pela imaginação. Excelente! E, sim, as tirinhas dão boas lições em 2 ou 3 frases e com a força do desenho. Gosto do Calvin e Haroldo, do Hagar e do Recruta Zero. abraços
Therezinha Haddad

Melina Borba disse...

Oi Ezequiel!

Adorei blog! Os comentários acerca da temática sobre a leitura são valiosos.

Abraços, continue postando...

Melina