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segunda-feira, 22 de julho de 2013

ANÁLISE DE TIRINHAS (23) - ESCRITA ENQUANTO LEGITIMIDADE


Quando a Síndrome de Alzheimer começou a agir na cabeça de minha Mãe e, portanto, quando o esquecimento estreitava a sua memória, lembro-se que uma das maneiras de fazê-la se lembrar era escrever no papel as coisas que tinham ocorrido. Seguíamos, na época, as orientações do neurologista e registrávamos tudo no papel, na expectativa de que ela recorresse ao caderno para se lembrar. Ler e lembrar...

O caderno funcionou por certo tempo, até que minha Mãe também se esqueceu da própria existência das anotações. Guardamos até hoje esse caderno, onde enumerávamos os acontecimentos relacionados à memória a curto-prazo, e a expectativa era a de que, escrevendo sempre, as lembranças jamais fossem se apagar da sua consciência. Ler e não se lembrar...

Escrita e memória apresentam uma íntima relação, o que enaltece a importância relativa da leitura nesse tipo de situação. Entretanto, HAGAR, na tirinha, nos aponta para a força que tem a palavra escrita numa sociedade letrada, mesmo que dentro dela a oralidade e/ou a imagética prevaleça (m) enquanto meio(s) de comunicação.

É extremamente forte, na cabeça da população, as relações entre escrita-verdade, escrita-compromisso e escrita-pensamento. De fato, o peso da palavra escrita é muito maior do que o da palavra oral. Dar ou dizer a palavra não tem a mesma força do que escrever a palavra.

O pensador Marcial Salaverry parece concordar com o que diz a tirinha, com o que eu também tento argumentar, ao afirmar que: 

"Algo que nem todos entendem, mas que é um fato inegável, ou seja, que a real força do mundo, está nas palavras, sejam as ditas, sejam as escritas. Mas as palavras escritas têm mais força, porque é algo que fica marcado, enquanto aquilo que é dito pode ser mais facilmente desdito do que aquilo que foi deixado por escrito. Portanto, é imprescindível bem sabermos usá-las.

Uma declaração de amor feita por palavras sempre merecerá crédito, mas se for escrita, será mais bem aceita. Passa a impressão de maior sinceridade, pois a pessoa amada deixou como que um documento da declaração.

Se falarmos por telefone que estamos com saudade de alguém, certamente terá o sentir entendido, mas escrever, dizendo de sua saudade, terá maior efeito. Será algo que não ficará apenas na memória, mas diante dos olhos. O bilhete poderá ser lido e relido.

Da mesma forma, se falar da tristeza que uma ausência produz. Fazendo por escrito, servirá como alivio, tanto para quem escreve, como para quem lê. Minimiza um pouco a dor da ausência.

São assim são as palavras escritas. Elas indiscutivelmente possuem como que um magnetismo especial, sempre trazendo alivio para quem as lê, libertando mais as emoções, acalentando, dando uma certa tranquilidade quando alentadoras. " *

Um comentário:

Dorothea disse...

Realmente, a palavra escrita possui magnetismo, resgata sonhos.
Conhecemos as obras, a vida dos poetas, filósofos, escritores graças a palavra escrita.
Sem ela....quanta coisa se perderia no tempo e no espaço.....
Dorothea