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sexta-feira, 22 de abril de 2011

ANÁLISE DE TIRINHAS (8)

Várias análises da leitura, como aquela de Maria Helena Martins, contida no livro "O que é leitura", apontam para os aspectos sensoriais da leitura. Tais aspectos podem ser tomados sob duas óticas: 1. aquelas sensações que resultam da leitura dos textos em si e 2. aquelas sensações relacionadas com o toque tátil no suporte de leitura (neste quadrinho, segurar, passar as mãos, virar, sentir, cheirar, etc. o papel duro da capa e as páginas do miolo).

Sem dúvida que as sensações do tipo (2) resultam muito mais de suportes que possam ser tocados e "cheirados", como a menina da tirinha o faz. Entretanto, dando um salto bem grande no conjunto de suportes da escrita, pense numa tatuagem de uma ou mais frases inscritas na pele de uma pessoa e em diferentes partes do seu corpo - aqui as sensações podem aumentar significavemente, inclusive adicionando sensações táteis de calor, frio, morno, etc.

As editoras de livros de pano ou somente de imagens, geralmente direcionados para crianças em idade pré-escolar, exploram bem as texturas para que a criança possa interagir tatilmente com as obras. Esse manuseio é sem dúvida muito rico e significativo, contribuindo para que a criança se aproxime do livro e com ele interaja de diferentes formas; nestes termos, a própria significação do objeto "livro" pode ser mais bem internalizada pelas crianças que vivenciam essa experiência.

Eis aqui um poema de Cecília Meirelles que retoma as múltiplas sensações do leitor ao interagir prazerosamente com um texto:

Reinvenção


A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.


Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança...


Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só - na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.


Cecília Meireles


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