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sábado, 30 de outubro de 2010

ANÁLISE DE TIRINHAS (3)

Venho combatendo a ideologia da pressa, que atualmente perpassa várias esferas da existência humana. A pressa cada vez maior é geralmente gerada no bojo da velocidade das máquinas da contemporaneidade. Segundo dizem, há uma nova invenção tecnológica a cada quinze dias que passam e temos que nos virar com elas...

Para corresponder à pressa de hoje, e a fazer valer - a sociedade de consumo vem inventando uma parafernália de objetos, serviços, lugares e técnicas para venda à crescente comunidade dos apressados. No motel o sexo é rápido; se demorar muito, o casal paga mais. No MacDonald's, ao atendimento rápido segue-se o engolir rapidinho, sem mastigar muito para "apressadamente" dar lugar a quem estiver chegando.

Na esfera da leitura, foi criado um milagre para vencer a avalanche de textos que nos chegam por todos os lados. Na chamada "leitura dinâmica", o leitor, depois de treinado num curso bem pago, conseguirá ler uma carrada de textos em diagonal e, dessa forma, ficar mais satisfeito com o seu desempenho.

Quando eu ainda fazia o mestrado na Universidade de Miami, nosso grupo conduziu uma extensa pesquisa e fez uma análise crítica dos cursos de leitura dinâmica existentes no mercado. Fomos em cima e descobrimos que esse tipo de leitura não se aplicava a todos os tipos de texto e que os materiais usados nos cursos eram romances água-com-açúcar, altamente redundantes, cujas idéias podiam ser facilmente inferidas pelo leitor.

A velocidade da leitura depende de 4 fatores: 1. da dificuldade (lexical e sintática) do texto; 2. do repertório prévio do leitor (quanto mais conhecedor do assunto do texto, maior velocidade na leitura); da finalidade ou propósito da leitura (passar o tempo, estudar, pesquisar e anotar, etc); e 4. da circunstância em que a leitura é realizada. Inclusive, o bom leitor é considerado como aquele que sabe ajustar a sua velocidade de leitura à dificuldade do material e à finalidade buscada.

E mais: há determinadas leituras que devem ser curtidas o mais devagar possível, sem pressa, prazerosamente, meditativamente, deixando as horas passar e as imagens serem vagarosamente construídas na nossa mente, como no haikai abaixo:

Pintou estrelas no muro
e teve o céu ao
alcance das mãos

                Helena Kolody












2 comentários:

Silvana disse...

Impecável a sua análise, Ezequiel. Como sempre, excelente postagem. Vou continuar divulgando o seu blog!

Tania Aires disse...

Execelente esse post.