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domingo, 14 de julho de 2013

LEITURA E SENTIMENTOS

Dentre as múltiplas funções cumpridas pelas práticas de leitura, aquela de gerar sentimentos no leitor se coloca como uma das principais. Por exemplo, as chamadas "leituras de conforto" ( ou de lenitivo), geralmente feitas com textos da natureza religiosa, são capazes de reequilibrar um ser humano na sua caminhada de vida. E não é à toa que o livro mais lido no Brasil - e acho que também no mundo - seja a Bíblia. 

Muitos estudiosos dos processos de leitura afirmam que a formação de um leitor depende muito mais das leituras produtoras de sentimentos e de prazer do que as leituras voltadas ao estudo e às competências de natureza cognitiva. Daí a força da leitura da literatura, instigadora da fantasia e de sentimentos múltiplos, no desenvolvimento do hábito de leitura. 

O quadro SAUDADE (1899. 1,97 x 1,01 m, óleo sobre tela), do pintor regionalista brasileiro Almeida Junior, nos ajuda a entender a relação acima exposta. Antes de tudo, chama a nossa atenção o trabalho feito com a luz. De fato, a cena é iluminada pela luz de uma janela, e há um grande contraste entre as vestes escuras da moça e a claridade do exterior. 

A expressão da moça que lê uma carta é de grande tristeza.

Ainda numa análise esquemática da obra, percebemos uma luz em perpendicular que entra pelo primeiro quadrante passa pelo chapéu, brincos, boca, lágrima, documento, livro e termina no baú entreaberto - essa luz conduz de início o nosso olhar para dentro da obra. A postura da mulher, voltada para dentro, simboliza "introspecção", ignorando o universo externo.

A tradução do tema é precisa na figura da comovida mulher, as lágrimas, duas gotas a correr em seu rosto, são certeiras da dor que por vezes compõe a palavra  "saudade" que ali é tratada como falta de algo ou alguém. E lembrar ainda que, no final do século 19, quando a saudade se expressava na ausência física, as cartas constituíam um dos únicos caminhos para o diálogo na distância. 

E vem à mente nesta breve reflexão um pensamento de Helen Keller, que dizia: "As coisas melhores e mais bonitas do mundo não podem ser vistas ou mesmo tocadas. Elas precisam ser sentidas com o coração." Portanto, ler e sentir as coisas com o coração, ver nascer sentimentos em si, revitalizar as emoções desta vida através de leituras carregadas de sentimentos e emoções - eis um caminho seguro para o ensino orientado para formação objetiva de leitores na escola e em outras instâncias socioculturais. 

2 comentários:

Lilian disse...

Ezequiel,
Dentre todas as obras que contemplo, esta, de Almeida Jr., é a que mais me toca, não só pela luminosidade, que entra pela janela e que me faz entrar na obra, mas pela expressão de "saudade" retratada de forma tão real no rosto da moça.
Esse quadro está exposto no primeiro andar na Pinacoteca de SP, e é o caminho que sigo sempre que vou até lá. A leitura que se faz da obra, em nosso silêncio, é das mais eloquentes.
Lilian

Janete Marcia disse...

Ezequiel... sempre me tocando com suas intensidades sobre Leitura. Gosto de seus textos e continuo a perseguir o que se pode de uma e de muitas leituras!
Esta obra é belíssima e seu texto, mais ainda.
Obrigada por me tocar tanto num momento, em que, acredite, estou escrevendo um texto sobre encontros que se dão entre Literatura e Filosofia.