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sábado, 8 de junho de 2013

DAS VIOLÊNCIAS CONTRA PROFESSORES



De todas as desgraças ocorridas no âmbito da educação brasileira nestes últimos tempos talvez as mais perversas sejam aquelas relacionadas à agressividade e violência dos estudantes contra os seus professores. A APEOESP, por exemplo, através de pesquisa recente, estima que os casos de agressão a professores estejam crescendo 20% a cada semestre; de 10 professores, 6 já foram vítimas de algum tipo de agressão nas escolas paulistas. A imprensa continuamente mostra incidentes cada vez mais esdrúxulos de violência contra os professores, atingindo até mesmo o absurdo dos espancamentos, numa escalada desconcertante, geradora de um imenso mal-estar em todo o país.

As raízes desse mal-estar devem ser buscadas no contexto geral da sociedade brasileira, onde brotam e se reproduzem os maus exemplos, latrocínios, homicídios e desvios de conduta (crueldade, mentira, agressividade, etc.), coroados pela imoralidade, falsidade, impunidade, etc. Esses fenômenos são privilegiados pela mídia, principalmente a televisa e a imprensa marrom, que passa a amplificá-los e reforçá-los através de programas ou telejornais cujo conteúdo que prepondera - ou redunda - é a violência e todos os ornamentos bizarros que ela projeta junto às faixas sociais, entre elas a infância e a juventude.

Os efeitos ou reflexos do contexto maior (sociedade) nos contextos menores (escola, família, trabalho, etc.) sem dúvida explicam, em grande parte, o surto crescente de violência nas salas de aula, recaindo principalmente sobre a pessoa do professor. Entretanto, a partir de uma análise daquilo que ocorria nas escolas até bem pouco tempo atrás, podemos encontrar uma outra razão para os constrangimentos de natureza agressiva ou violenta que, a partir de um determinado ponto da nossa história, começaram a crescer em termos de incidência e frequência. Uma breve retrospectiva da evolução histórica da escola brasileira traz à nossa mente o fato de que eram os professores que, via palmatória e/ou outros expedientes disciplinadores (sovas, cocadas, ajoelhar no milho, ficar em pé olhando para a parede), castigavam e agrediam os alunos  sob a égide da obediência e do adestramento.

No artigo "Mudanças sociais e função docente" [in "Profissão Professor", Antonio Nóvoa (Org.). Porto Editora, 1999], José Maria Estéve aponta para uma inversão de lógicas no âmbito da educação escolarizada em vários países do mundo. Em termos mais específicos, para Estéve, a lógica docente ou magistrocêntrica cedeu lugar, contemporaneamente, à lógica discente; se no passado não muito longínquo era o professor que segurava a batuta, batia na mesa e detinha a razão, hoje em dia quem tem razão é o aluno. Com esta inversão, sem dúvida de caráter extremista, a autoridade docente se enfraquece ou se pulveriza, levando muitos professores a temerem quaisquer atitudes e/ou ações que possam ser percebidas ou interpretadas como coercivas, proibitivas ou punitivas, entre elas o “atribuir notas baixas”. E todo o aparato normativo, por ter sido produzido a partir  dos abusos contra a infância, pende para o lado dos alunos, reforçando assim o poder da lógica discente. 

Se o mal-estar em relação aos múltiplos fracassos da escola já é grande e constatado pela população em geral, ele é muito maior quando incorporado pelo professor nas interações travadas com seus grupos de alunos na diferentes séries escolares. Tendo sido – também - transformado num objeto de violência e agressão, o professor apresenta diferentes comportamentos como: desajustamento e insatisfação, pedidos de transferência, medo e inibição, abandono da profissão, absenteísmo laboral, esgotamento, estresse, autodepreciação, neuroses, e depressões. Quer dizer: às outras violências (salário minguado, péssimas condições de trabalho, jornadas fatigantes, desrespeito generalizado à profissão, etc.) já sofridas dentro da profissão, soma-se agora mais uma violência: a física, praticada por aqueles a quem o professor tem por responsabilidade educar, informar e formar, desenvolver valores, etc. Resulta daí uma  inversão paradoxal de expectativas; no fundo, extremamente desafiadora em termos de enfrentamento e superação. 

Qual a saída para este estado de coisas? Afora os arranjos que devem ser feitos na sociedade como um todo, sustando urgentemente o cultivo e a banalização da violência, no âmbito da escola a solução reside no equilíbrio sadio das duas forças aqui descritas de modo que o professor e seus alunos saibam se respeitar mutuamente dentro de uma ambiência democrática - ambiência na qual conhecimento possa ser (re)produzido e onde uma nova ética ou uma sólida base para a convivência harmônica possa ser  assumida por ambas as partes.

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