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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ENTREVISTA - REVISTA PROFISSÃO DOCENTE


Sobre a profissão docente

Qual é a sua trajetória pela profissão docente?
Sou um professor de carreira e comecei a ensinar logo durante a minha formação no Curso Normal (década de 1960), tendo trabalhado em quase todos os níveis escolares, com exceção da educação infantil. Trabalhei sempre com língua inglesa e língua portuguesa. A partir de minha transferência para a Unicamp em 1975, passei a me dedicar exclusivamente ao estudo e aprofundamento de questões relacionadas à promoção da leitura e formação de leitores, fazendo justiça ao meu curso de mestrado na Universidade de Miami. Além das funções docentes, exerci vários cargos em paralelo: coordenador de biblioteca universitária, diretor executivo da Editora da Unicamp, chefe de departamento, etc. até chegar ao cargo máximo de Secretário Municipal de Educação de Campinas. Ao lado de estudos e pesquisas tematizando a problemática da leitura, fiz várias incursões no campo da identidade e da formação de professores, sempre tendo a leitura como tema principal de minhas reflexões. 

Docência e pesquisa são instâncias indissociáveis em sua trajetória?
Minha gangorra profissional sempre pendeu mais para o lado da docência, ainda que eu me alimentasse de resultados de pesquisas científicas para enriquecer e qualificar as minhas atividades de ensino. Eu diria que sou mais professor do que pesquisador, tanto é assim que a quantidade de investigações (lideradas ou coordenadas por mim) não é muito extensa. Mas entendo que esse binômio (docência-pesquisa) é de extrema importância para uma trajetória robusta na esfera da educação. Infelizmente, em decorrência do vergonhoso contexto educacional brasileiro, os modos de ser professor no Brasil nem sempre oferecem condições concretas e facilitadoras para a produção da pesquisa e muito menos para o acompanhamento crítico dos seus resultados, neste caso a incorporação dos dados científicos para o incremento do ensino. 

Qual é a relação entre a sua experiência de vida com o seu exercício docente?
Sempre adicionei as minhas experiências de vida ou as minhas vivências pessoais no magistério que pratico. Exemplifico: além de professor, sou também violonista, pescador recreativo, viajante inveterado, jardineiro e cozinheiro nas horas vagas, etc. - nos meus cursos procuro adicionar atividades musicais, causos e piadas do universo da pesca, etc. no sentido de fazer justiça àquilo que sou e sei e venho construindo ao longo da minha existência. Acredito que o estabelecimento dessas relações entre as vivências culturais e a docência abre caminho para a imaginadora criadora do professor no momento de planejar as suas unidades de ensino para um determinado grupo. Além disso, tais relações, por vincularem vida e profissão, adicionam sabor e motivação para uma caminhada coletiva de conhecimento a partir da escola. 

Como você vê a formação docente no Brasil atualmente?
Descaracterizada, bombardeada, aligeirada por muitos cursos de beira de estrada, que privilegiam tão somente o aspecto comercial da formação. Por isso mesmo e considerando os salários oferecidos aos professores, muitas pessoas fogem de sua vocação primeira, não permanecendo no magistério. As exceções de uma boa formação (política e pedagógica) apenas confirmam a regra de que ser professor neste país ainda significa missão e sacerdócio, havendo que enfrentar muitas frustrações para realizar um trabalho crítico e significativo junto ao alunado e junto ao coletivo de uma escola. 

Sobre leitura e formação de leitores

Como você define leitura?
Como produção de sentido(s) aos signos que veiculam conteúdos culturais. Essa produção, por sua vez, é orientada pela intencionalidade do sujeito-leitor. Nestes termos, movido por um horizonte de compreensão/interpretação, o leitor recria sentidos possíveis a um texto. Costumo dizer que o movimento de leitura envolve movimentos conscientes de destecer e retecer sentidos (ideias) a partir da interação leitor-texto.                             
Para você, a escola brasileira atual configura-se como espaço de formação leitora? 
Pelos resultados das avaliações oficiais do desempenho dos estudantes brasileiros em leitura e escrita, esse espaço tem se mostrado muito débil em termos de formação. E o vergonhoso quadro não resulta exclusivamente das péssimas condições de ensino e da formação do professor, mas também da falta de uma infraestrutura condigna que promova e facilite a leitura, como bibliotecas de bom calibre, de laboratórios, profissionais de apoio, etc. Além disso, a didática utilizada na condução das atividades de leitura quase sempre não leva em conta as múltiplas finalidades da leitura e nem as transformações que decorrem das transformações tecnológicas da atualidade.                             

Qual é sua opinião sobre a formação leitora dos professores brasileiros?
Em que pese o avanço teórico e investigativo, ainda patinamos na formação básica e continuada relacionada a aspectos específicos do ensino e orientação da leitura. Existem evidências que mostram a debilidade dessa formação, apontando até para professores que não são leitores e nem se entusiasmam ou sentem prazer com as atividades de leitura. Com isto, os modelos e exemplos docentes de leitura não são dos melhores, o que enfraquece a importância desse processo na vida das pessoas. Lamentavelmente, diga-se.                             

O que você pensa sobre as atuais políticas públicas para a leitura e formação de leitores no Brasil?
No geral, inócuas pela sua descontinuidade e pelo investimento financeiro para a sua sustentação na prática. É um eterno recomeçar que não deixa resíduos positivos na realidade concreta. Já afirmei que as políticas públicas de leitura, pelo baixo investimento e envolvimento dos diretamente responsáveis pelo encaminhamento das práticas, tendem mais à entropia (desorganização) do que à mudança e ao avanço. Diferentemente de quem defende a desescolarização da leitura para efeito de sua promoção, acredito que as políticas públicas deveriam focar a escola como o ambiente principal de formação de leitores, centrando os maiores investimentos na área educacional. Ainda cabe dizer que, no Brasil, a política da leitura é confundida com a política do livro, recebendo esta o maior quinhão de verbas (aquisição, distribuição, etc.), deixando os mediadores de leitura de fora do processo.
Quem é o leitor Ezequiel?
Uma pessoa igual às outras, só que carregando consigo um forte sentimento de solidariedade para com o próximo e um fortíssimo desejo de transformações, para melhor, da sociedade brasileira.  Uma pessoa que detesta a mediocridade e odeia quem alimenta ou promove a mediocridade em benefício próprio. Um leitor sempre que pode. Um amante da profissão docente, sempre exigente naquilo que faz ou que produz, pois besteirol este nosso país já tem demais. Pescador e violonista, que lê a Natureza, defendendo-a com unhas e dentes, que vive intensamente a música como aprimoramento de seus valores, conhecimentos e sentimentos. E, finalmente, que vê a leitura como possibilidade de qualificação de decisões e ações do homem em sociedade.  

Universidade de Uberaba, Programa de Pós-Graduação em Educação, Revista Profissão Docente

Um comentário:

Jovens Leitores disse...

Olá prof. Ezequiel!
Tudo bem? Eu sempre leio seus artigos.
Que bom saber que não estamos sozinhos! Sua argumentação sobre a realidade política pública de leitura é verdadeira quando diz "as políticas públicas deveriam focar a escola como o ambiente principal de formação de leitores, centrando os maiores investimentos na área educacional". Ajude-nos a defender essa ideia!
Abraços!
Geisa