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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

MÚSICA E MEMÓRIA - MUITO MAIS E SEMPRE


Uma das características mais impressionantes da nossa memória é a sua capacidade de relacionar os fatos do passado com os ocorridos no presente ou vice-versa. E um dos fatores de mediação para que essas relações ocorram é, sem dúvida, a música. Daí que, ao ouvirmos uma determinada canção, surjam lembranças específicas - e muitas vezes nítidas - em nossa mente.


Antes da era do descartável, quando os fenômenos da realidade tinham maior duração, as músicas penetravam mais a fundo em nossa consciência, ali permanecendo ao longo da nossa vida. Para os amigos da minha geração (final de década de 1940), as canções entravam pelos poros e indelevelmente marcavam muitas situações e práticas sociais. 

Outro dia, por exemplo, me peguei recordando as músicas cantadas na igreja e nas procissões da minha terra... e num minuto as letras e os momentos vividos foram trazidos ao presente. Agora, junto aos sobrinhos pequenos, num piscar de olhos relembro  as cantigas de ninar e de roda - ou de rua - da minha infância: Capelinha de melão, Atirei o pau no gato, Marcha Soldado, Terezinha de Jesus e outras tantas enraizadas nos complexos esconderijos da memória. 

As músicas dos filmes assistidos no cinema local e mesmo no início dos seriados da televisão também nos acompanham vida afora. Basta que as primeiras notas da canção sejam tocadas para que nos recordemos de todo o enredo do filme ou então, o que não é incomum, de uma pessoa amiga ou amada que nos acompanhou durante a projeção. E o vento levou, Casablanca, Cantando na chuva, "A ponte do rio Kuwai, "O mágico de Óz, 2001 - uma odisseia no espaço, Doutor Jivago, etc. - estes títulos se misturam dinamicamente às suas trilhas sonoras - misturam que nos alimentaram e alimentam a alma no transcorrer da existência. 

Tom Jobim tem uma frase lapidar a respeito da presença da música em sua vida: "A linguagem musical me basta!" Essa frase inclusive encerra o documentário "A música segundo Tom Jobim", produzido recentemente por Nelson Pereira dos Santos. Poderíamos pensar que a frase nasce da boca de um músico, mas creio que não seja bem assim; acredito que Tom Jobim sabia como os diversos gêneros de música estão encarnados nas nossas práticas sociais, dos rituais aos momentos de alegria e descontração. Pergunto: o que seria do ritual de um casamento se não houvesse a presença da música? 

Há exatamente um ano atrás resolvi retomar os meus estudos de música e de guitarra, suspensos no final da década de 1980 em função de outros caminhos da vida. Foi como se eu renascesse e fizesse a minha memória comandar a ação dos meus dedos. As músicas, pela sua força e presença arquivada na mente, vieram fáceis do passado longínquo ao presente. E o prazer foi tamanho que eu até me juntei ao Grupo TEMALANÇO (com três apresentações recentes nos salões do Tênis Club de Campinas), com amigos que, como eu, também guardaram carinhosamente na memória aquelas canções que  produzem recordações para si e para as pessoas que nos ouvem tocar.

Um comentário:

Rodney Eloy disse...

Ótimo texto Mestre! A le-lo lembrei-me de uma frase do historiador Fraçois Guizot: "A música oferece à alma uma verdadeira cultura íntima e deve fazer parte da educação do povo"

e da canção de Gonzaguinha, "Memória":

Houve um dia aqui uma praça
Onde tantas crianças cantavam
Houve um dia aqui uma praça
Onde os velhos sorriam lembranças
Houve um dia aqui uma praça
Onde os jovens em bando se amavam
E os homens brincavam trabalhando
Um trabalho sem desesperança
Digo meu filho que esse jardim
Era o viço da vida vingando
Digo meu filho que esse jardim
Era o branco dos dentes brilhando
E a festa da vida seguia
Pelo o franco dos gestos libertos
Digo de fresca memória que não aqui não havia
Do medo este cheiro
Digo de fresca memória que não aqui não havia
De estátuas canteiros
Houve um dia aqui
uma praça, uma rua, uma esquina, um país
houve crianças e jovens e homens e velhos
um povo feliz.