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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

CULTURA EM CAMPINAS, POR UM NOVO PATAMAR


Das ruínas deixadas pela última administração municipal de Campinas, sem dúvida que as de natureza cultural foram as mais visíveis, abrangentes e desastrosas. Os próprios culturais foram descuidados no que se refere a sua manutenção e/ou reforma - muitos deles foram fechados ao público, outros sucateados e outros, ainda, descabeçados pela falta de um corpo de profissionais especializados para a sua condução. Numa palavra, o cenário é tétrico, atingindo as raias do funesto, e as recorrentes denúncias e insatisfações tornam ainda mais escancarados os incessantes descuidos, os crassos erros de gerenciamento, as desculpas esfarrapadas, os brios feridos e a franzina infraestrutura pública para atendimento das carências culturais de uma cidade com mais de um milhão de habitantes. 

Ainda que o legado cultural de Campinas seja nacional e internacionalmente reconhecido, ainda que o município tenha vivido momentos de imensa efervescência artística nas áreas da música, literatura, artes plásticas, cinema e dança, ainda que por aqui residam grandes artistas ligados ao diferentes ramos da arte, o fato é que as nossas políticas culturais pouco ou nada corresponderam, na prática e na continuidade do tempo, à grandeza e à significação desse legado. Além disso, as tentativas de descentralização das artes e de capilarização de centros, pontos ou unidades de cultura quase sempre terminaram em pizza, morreram na praia, numa cabal demonstração dos processos de secundarização da arte-cultura pelas autoridades. Sob certo sentido, a cultura campineira virou sinônimo de discurso vazio em decorrência do descaso-desdém e da imensa dívida que foi – e vem - se amontoando ao longo de diferentes governos. 

À moda da velha tradição de inauguração de espelhos d'água nas cidades do interior, não basta que os dois teatros municipais (Sala Luis Otávio Burnier, Centro de Convivência Cultural; e Castro Mendes) sejam reabertos e tomados como sendo "o máximo" de uma política cultural mais sadia e eficiente para Campinas. Sem dúvida que a reabertura dos mesmos é um compromisso de honra e uma prioridade de qualquer governante esclarecido; entretanto, ao lado da infraestrutura física, é preciso recompor e treinar as equipes de funcionários, reativar a coordenadoria de produção cultural, estabelecer diálogo com outros centros, criar um calendário diversificado de ofertas culturais e assim por diante. Talvez uma boa política cultural para Campinas lamentavelmente nasça muito mais da análise dos pecados até agora cometidos do que dos poucos acertos existentes nessa área, pelo menos os dos últimos tempos...

Além de reforma, reinauguração e infraestrutura humana, os equipamentos e os programas culturais precisam urgentemente de "expansão", crescendo em quantidade e qualidade aos quatro cantos do município. De fato, a cidade possui um enorme deficit de locais para a fruição das artes e os que existem estão localizados no centro e adjacências, dificultando ou até mesmo impedindo a usufruição cultural pela grande maioria da nossa população. A descentralização, irradiação, circulação das produções artístico-culturais precisa ser colocada no topo das prioridades de uma política "decente" para restaurar as práticas culturais em Campinas, sob o risco de uma reprodução infinita das atuais frustrações. Denúncias sem anúncios e transformações concretas geralmente perdem a força na redundância e não impedem, infelizmente, a chegada das entropias e das ruínas! 

Enquanto os governos tomarem as atividades culturais como supérfluos, em nada contribuindo para a integridade espiritual dos cidadãos, veremos o tempo passar e nada acontecer em termos de mudanças substantivas nessa área. Pior: veremos jogadas para escanteio, completamente olvidadas, algumas funções primordiais da fruição artística: a humanização das pessoas, o equilíbrio da personalidade, o conhecimento e amadurecimento dos cidadãos e a criação de novas visões de mundo. 

Fica a expectativa de que os candidatos a Prefeito nas eleições deste ano pensem mais sensivelmente, mais criticamente sobre o assunto!

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