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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

CULTURA + EDUCAÇÃO+CULTURA



Recente editorial do CORREIO POPULAR mostrou o lamentável estado em que se encontra a Estação Cultura: de sonho (do Prefeito Toninho) passou a ser pesadelo em termos de ocupação, manutenção e programação. As recorrentes notícias a respeito dos próprios culturais de Campinas, das parcas bibliotecas aos irrisórios teatros públicos, apenas apontam para um fato inquestionável: a pasta da cultura não tem verbas para fazer os investimentos nas várias frentes em que deve ou deveria atuar. Cultura em Campinas, em decorrência do seu desprezo pelas recentes administrações, virou sinônimo de inanição e retrocesso - daí o buraco, o abismo em que se encontra.

A troca recorrente de secretários de cultura é um claro sinal da falta de caixa - sem dinheiro para transformar projetos em realidade, é muito difícil alguém se segurar no cargo, a menos que seja para ganhar alguns cobres a mais, contentar a burocracia administrativa e criar calos para receber as pancadas da comunidade (e quase nenhum aguentou...). As tradicionais soluções, como "criatividade" ou "parceria com iniciativa privada", se transformaram em desculpas para a continuidade da frustração, até que a crítica ou a denúncia mostrasse, de novo, a imobilidade ou a estagnação da área. Se recuperarmos as manifestações dos últimos secretários da cidade, veremos que cada qual tinha um sonho ou pelo menos um conjunto de ações para implementar na área - passou o tempo e essas ações não se viabilizaram.

Com base nessa triste realidade, não resta dúvida que a esfera da arte-cultura em Campinas será um grande desafio para a próxima administração. As falas dos candidatos, conforme as entrevistas até agora publicadas pelo CORREIO POPULAR, são débeis, enviesadas e ligeiras, parecendo não levar em conta a imensa dívida social e econômica que foi acumulada nessa esfera. Os breves esboços de antevisão programática para a área cultural repetem velhas fórmulas de solução, resvalando no simplismo, proclamando o bairrismo ou, pior, repetindo e redundando as glórias de um velho e áureo passado que já se foi.

Parece-me que um horizonte promissor - e realista - para um estudo crítico da situação da arte-cultura em Campinas reside exatamente na possibilidade de união das pastas da educação e da cultura. Essa união poderia resolver, entre outros aspectos, a enrijecida (e falsa) divisão existente entre as duas áreas - com o quê trabalha a escola senão com cultura, aqui tomada como as conquistas arte e ciência? Aproveitaria a rede capilarizada das quase 1000 escolas para criar, dinamizar e escoar as produções artístico-culturais. Construiria polos culturais descentralizados (com bibliotecas, salas de cinema, vídeo, teatro, etc.) servindo como eixo de atendimento aos centros educativos e à comunidade, tal qual o projeto Farol da Educação, muito bem sucedido nos municípios paranaenses. Diminuiria os gastos com pagamento de secretários. Colocaria debaixo no mesmo teto o primo-pobre (cultura) e primo-rico (educação), organizando programas para o crescimento de ambos. Uniria produtores culturais, artistas, educadores, agentes culturais, etc. em torno de uma proposta viva e dinâmica, consubstanciada num Plano Diretor, talvez decenal, para ser implantado nos quatro cantos do Município.

No meu ponto de vista, a problemática cultural de Campinas, em termos de complexidade e dentro da esfera pública, reside atualmente na sua infraestrutura (física, econômica, humana, etc.). Quer dizer, a base material para a produção, circulação e fruição da cultura foi corroída e se encontra, neste momento, esfacelada. Para que uma nova superestrutura, de natureza democrática em termos de acesso, seja viabilizada, só existem duas saídas: 1. fornecer substância orçamentária (verbas para investimento) que faça valer uma verdadeira vontade política de transformação, para melhor, dessa área; ou 2. rever o espaço onde atualmente está alocado "aquilo que restou" para alavancar ou equilibrar a dignidade dos serviços culturais à população.

Publicado no Jornal Correio Popular, Campinas, 21/agosto/2012, p. A2


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