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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ENTREVISTA - IMPORTÂNCIA DO CURSO DE LETRAS

Há dois anos uma universidade do sul do Brasil não recebe candidatos para o Curso de Letras. Diante desse problema, solicitou depoimentos a diversos intelectuais brasileiros a respeito da importância do curso e do próprio profissional da área. Seguem as perguntas e as minhas respostas.

O século XXI trouxe novos desafios para o homem. Vivemos novos tempos. Os mercados se abriram, se mundializaram. A comunicação tornou-se uma ferramenta para o sucesso. Diante deste novo cenário, como o senhor projeta o profissional de Letras?
Ezequiel – O profissional de Letras lida fundamentalmente com a linguagem, a língua, a literatura e a comunicação dentro de qualquer cenário ou desafio espacial-temporal. Ainda que os novos tempos tenham gerado avanços técnicos e tecnológicos, na base de todos eles sempre se colocam os objetos (linguagem, língua, etc.) com que trabalha aquele profissional. Por exemplo, a base da circulação de informações pela Internet é a escrita, agora virtual, mas ainda escrita, o que demanda leitura, agora leitura com características também específicas. Nestes termos, uma projeção do profissional de Letras para a contemporaneidade faz ver que ele deve dominar os modos de comunicação que dinamizam as interações entre os homens, organizando atividades de aprendizagem que levem as novas gerações a se situarem e participarem, através do domínio de competências linguísticas, das dinâmicas de sua realidade.

Considerando sua experiência, que oportunidades podem surgir na vida a partir da formação em Letras?
Ezequiel – Como eu disse, o característico diferenciador dos seres humanos é a linguagem, produtora de sentidos e de cultura. Nestes termos, ainda que a linguagem seja inata ao homem, ela precisa ser esmerada em sociedade e na escola. Daí a importância do professor de letras para não apenas cultivar a linguagem via escola, mas também pesquisar e produzir conhecimento das características dos usos da linguagem em diferentes contextos sociais. Cabe lembrar que a complexificação e expansão da subjetividade humana depende fundamentalmente das ações orientadas pelas práticas de leitura e de escrita. Pensamento e linguagem são indicotomizáveis: qualidade de um depende da sofisticação do outro. Nestes termos, uma formação em letras deverá se orientar por todos aqueles contextos onde houver linguagem, cultura, comunicação, interação, etc.

No dia a dia, qual a importância de se dominar Língua Portuguesa? E Língua Inglesa?
Ezequiel – A aprendizagem das línguas é sempre uma aprendizagem da cultura dos povos que falam e se comunicam através dessas línguas. Num contexto de globalização, de mundialização, de queda de fronteiras pela força das novas tecnologias de comunicação e informação, o estudo e domínio das línguas, não somente a inglesa, ainda que esta seja de uso universal, significa a expansão do poder de entendimento entre os homens e, por isso mesmo, a possibilidade de melhorar a vida em todas as sociedades da Terra. Acredito que todas as demais funções da aprendizagem das línguas devem aparecer em segundo plano, sendo sempre coroada pelo desejo dos homens de se conhecerem entre si.

A quem o senhor recomenda cursar Letras? Por quê?
Ezequiel – Os curiosos a respeito de tudo aquilo que está envolvido com a linguagem: língua(s), literatura(s) e comunicação humana, entre outros. Além disso, aquelas pessoas que desejam cientificamente e apaixonadamente transformar a realidade (para melhor) através da formação de outras pessoas. Em outros escritos, já teci severas críticas aos professores que foram jogados na carreira sem nenhuma aptidão para interagirem pedagogicamente com estudantes, tendo como responsabilidade o domínio das práticas de leitura e da escrita. Nestes termos, aconselho cursar Letras aqueles com sensibilidade para com as línguas e os veículos que movimentam o mundo dos signos e símbolos da humanidade, possuindo também uma profunda preocupação com a formação de pessoas que possam modificar o mundo pela linguagem e pela ação. Creio que o tempo do beletrismo, da língua enquanto verniz, já morreu há muito tempo – devem vir para o curso de Letras aqueles que percebem, com perspicácia, ser possível melhorar as sociedades pelo ensino-aprendizagem da lingua e da literatura, o que significa dizer das conquistas culturais da humanidade, que inevitavelmente vêm sempre expressas pela linguagem.

Um comentário:

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

OLá, Ezequiel. Em Fortaleza, há alguns anos, a Universidade de Fortaleza (UNIFOR), particular, fechou seu curso de Letras.

Nas faculdades particulares existentes aqui, as disciplinas que envolvem diretamente estudos sobre linguagem, têm diminuído em número de horas / aula. Não sei se é tendência em todo o país.

Pelo que observo, os cursos de Letras estão muito fechados nos ambientes acadêmicos de universidades públicas.

Em muitas situações, a impressão que tenho é a de que conhecimento sobre linguagem não desperta muito interesse, quando a prioridade de vida é o capital.