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quinta-feira, 2 de junho de 2011

ENTREVISTA - ELEMENTOS DE PEDAGOGIA DA LEITURA

Nesta entrevista, organizado por Luiz Wagner Vilarinho Bonfim, contextualizo a produção do meu livro ELEMENTOS DE PEDAGOGIA DA LEITURA, publicado pela Martins Fontes, primeira edição de 1986.


Fale um pouco do livro “Elementos de Pedagogia da Leitura”. O que te motivou escrevê-lo?
Esse livro foi o terceiro que publiquei. A sua primeira edição, se não me engando, saiu por volta de 1986, quando o Brasil ensaiava passar da ditadura para o regime democrático. A minha motivação maior foi a de contribuir para com a formação de professores, principalmente no que se refere à organização do ensino da leitura nas escolas. Por isso mesmo, os capítulos foram organizados da mesma forma que a sequência das fases do planejamento educacional: estabelecimento de objetivos, organização de conteúdos, seleção de metodologias, avaliação, etc; inclusive, ao final do livro, apresento um conjunto de conselhos e dicas para os professores, mesmo correndo o risco de falta de contextualização e, à época, o risco de ser taxado de tecnicista. Vale ainda lembrar que, no conjunto da minha obra, esse livro específico se conjuga a outros que também falam aos professores no intuito de levá-los à análise das condições em que trabalham e busquem atualização constante para a melhoria do seu trabalho na escola.

O livro “Elementos de Pedagogia da Leitura” foi escrito na década de 80 momentos de repressão política. Isso atrapalhou?
Sem dúvida que uma ditadura sempre atrapalha a vida de um professor: quero vê-la sempre longe de mim e de qualquer povo. Essa experiência foi terrível, sob todos os aspectos. A repressão - de qualquer espécie - leva à censura e à auto-censura, o que impede a apresentação e/ou discussão de determinados temas. Um grande conjunto de intelectuais brasileiros, e aí eu me incluo, vinha fustigando os mecanismos de repressão desde 1978, quando a ditadura brasileira começava a ruir em função de muitos movimentos populares. Como a atmosfera democrática já tinha avançado significativamente até o ano de 1986, não tive dificuldade dessa ordem (censura) ao escrever e publicar o livro; por outro lado, o assunto da obra, mais voltado para o planejamento da leitura pelo professor, não levava a uma discussão exclusiva da ordem política daquele momento, a não ser temas relacionados ao porquê e para quê ensinar.


O senhor acha que o contexto educacional e de leitura enfocando no livro “Elementos de Pedagogia da Leitura” mudou, sofreu alterações significativas comparado com o modelo atual? Quais?
Sim e não, e começo pelo não. A obra é dividida em capítulos que mostram as fases que devem ser vividas pelo professor no momento em que for planejar o seu programa de leitura para uma determinada série escolar, apresentando um menu de idéias que podem incrementar as suas práticas de ensino. Do lado afirmativo, surgiram as conquistas da tecnociência (linguagens virtuais, Internet, etc) que, à época da publicação, ainda eram incipientes ou quase inexistentes. Hoje em dia, é impossível discutir a problemática da leitura sem se referir a essas conquistas, pois elas modificaram em muito as nossas interações em sociedade, os modos de ser e existir, de ler, de estudar, de tratar com o conhecimento e coisas assim.

Professor Ezequiel como o senhor vê a produção de leitura nas escolas e no contexto acadêmico? Quais as principais falhas o que poderia ser feito pra suprir os problemas de leitura no cenário estudantil?
Vejo com muita apreensão. Embora as informações que correm pelo mundo da escrita tenham crescido exponencialmente, a "profundidade" da interpretação e compreensão das ideias vem diminuindo cada vez mais em decorrência do primado do descartável, do apressado e do irrelevante. A velocidade avança sobre todas as dimensões da vida, fazendo com que a reflexão meditativa, o pensamento, a criticidade, etc não sejam aplicadas à leitura e ao estudo. Por outro lado, creio também que as interações à distância, permitida pela Internet e pelas redes sociais, são geradoras de solidão e, muitas vezes, empobrecimento dos relacionamentos de proximidade física. Com isto, com o império do "pronto-à-mão", gerado no bojo da explosão da informação e da velocidade (pressa), o efeito maior no contexto acadêmico é a superficialidade e, pior, o plágio ou a cópia. Infelizmente, a sensação que fica é a de que nada mais existe a transformar ou criar: apenas reproduzir aquilo que já vem pronto da indústria e do mercado de bens simbólicos.

O senhor cita no livro “Elementos de Pedagogia da Leitura“ Paulo Freire. Por ter vivido num contexto educacional e histórico semelhante ele influenciou o senhor na elaboração do livro? Se influenciou em quais aspectos?
Paulo Freire é um pensador humanista que delineou a pedagogia libertadora; a base dessa pedagogia é o diálogo. Pois bem, tomando a leitura como um diálogo entre o leitor e o texto, tomando o ensino como um diálogo entre o professor e seus alunos, tomando a existência humana como um diálogo com os horizontes desafiadores do mundo, incluindo-se aqui os múltiplos tipos de textos, veremos que não somente este livro em particular, mas toda a minha obra tem uma ligação quase umbelical com o pensamento e as propostas pedagógicas de Paulo Freire.

Para nós futuros historiadores e professores qual a mensagem que o senhor com sua vasta experiência poderia deixar?
Não pensar apenas nas desgraças de ser professor, mas pensar no prazer que pode ser a vida de um professor. A profissão e a carreira de professor - e, creio eu, de historiador também - foram vilipendiadas porque não interessa aos detentores do poder econômico e político a existência de sujeitos críticos em nosso meio. Os canalhas têm medo de perder os seus privilégios e vão sempre desprezar, menosprezar o magistério, considerando-o um trabalho de segunda categoria. No meu ponto de vista, a escola vai entrar num patamar de tanta ignorância e alienação que gerará uma reação nacional mais forte, mais penetrante, e, por isso mesmo, transformadora, se não revolucionária. Outro recado importante: nunca seja um professor meia-boca, isto é, um falso profissional que nada sabe e, por nada saber, finge que ensina, mente que professa, não conduzindo os seus alunos a lugar nenhum. Estude sempre e renove na consciência que o professor tem um compromisso perene com os outros (professores, estudantes, membros da comunidade, etc) e com o conhecimento, sempre percebendo as possibilidade de denunciar a barbárie ou os descalabros e criar novas possibilidades de existir em sociedade.

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