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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

LOBATO... QUERO UMA NOTA EXPLICATIVA PARA MIM TAMBÉM!!!!

PREZADO X:

Repassei o seu texto, com seu ponto de vista, à Professora Marisa Lajolo para que ela, se julgar conveniente, responder a sua mensagem a mim dirigida. Mas, como me pareceu que você pede um posicionamento "meu", segue abaixo, com total acato ao seu, pois vivemos numa democracia e o diferente precisa ser expresso e respeitado.

Como professor que sou e fui a minha vida inteira, inclusive descendente legítimo de índio brasileiro (meu avô era bugre, com muito orgulho), estou querendo que o MEC-CNE estabeleça uma nota explicativa para mim e para a minha profissão (explorado que fui a minha vida inteira), uma outra nota dos porquês da calamidade chamada "educação brasileira" (com um dos piores níveis de desigualdade do mundo e motivo número um dos piores IDH's do globo) e uma outra nota de a todo o instante se permitir, com o aval do CNE, a abertura de faculdades de beira de estrada, estritamente comerciais, para a formação de professores, ou melhor, de meio-professores neste país, que precisam ser sempre tutelados pelo MEC, via notas explicativas, para exercerem a sua profissão. 

Como educador, acompanho as leis e julgo que elas, incluindo notas e resoluções, de maneira nenhuma elas regem a consciência brasileira e as ações dos cidadãos. Em função de algumas poucas contribuições que dei à educação nacional, recentemente tive o prazer de prefaciar a obra "Minha África Brasileira - educação e diversidade", do negro grande amigo do peito Natanael dos Santos, obra esta elaborada e baseada na Lei 10.639/2003. Fui criado com negros na minha cidade natal, com muitos negros fui à escola (primária e ginasial) e até hoje tenho-os como grandes amigos e com eles aprendi uma porção de coisas nesta vida.

Miscigenado, mestiço, junção de sangues, de cabelo negro e grosso como meu bisavô bugre, entendo muito bem a dimensão de todas as injustiças cometidas pela raça branca aos negros e indígenas no Brasil, pisando autoritariamente nas suas culturas e impedindo a sua progressão social em direção a uma vida digna e cidadã. Entretanto, meu amigo, polemizar trechos literários, produzidos pela fantasia de um escritor, é simplesmente um descalabro teórico, uma burrice, uma ignorância sobre o fazer artístico e uma estupidez na esfera da recepção multivalente das obras ou textos dessa natureza.

Aqui em Campinas, a escritora HILDA HILST foi execrada das rodas literárias em função de um léxico erotizante, que feria o moralismo e a forma única de ler dos leitores "gabaritados" - leitores que agora aparecem no CNE, inclusive investidos de poder para impor "notas explicativas" e retirar dos leitores a sua liberdade de interpretação. Orientar protocolos interpretativos é matar a literatura - e quem diz isto não sou eu, é Antonio Cândido!!!

Bem, amigo, conforme eu lhe disse, eu também quero, como professor e mestiço que sempre fui e sou, uma nota explicativa do CNE contra todas as injustiças cometidas contra mim durante a minha vida e profissão. E outra nota explicativa sobre tudo aquilo que a educação brasileira poderia ter sido, mas não foi durante TODOS OS GOVERNOS (este último incluso, que costuma proclamar-se o melhor de todos via "Nunca antes neste país...."), talvez daí possamos ver melhor os porquês das vesguices como esta em relação ao mundo artístico-literário brasileiro. Nem vou mencionar aqui outros textos de Lobato, como Negrinha, que rebate todos os seus argumentos, caso fôssemos ler denotativamente a literatura, o que não é possível.

Um abraço sincero para você, EZEQUIEL, que sou também um pouco da essência deste trecho do Samba da Benção, do poeta Vinícius de Morais:

Ponha um pouco de amor numa cadência

E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração


Falado


Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum

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