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segunda-feira, 22 de março de 2010

EXEMPLO DE UMA LEITURA DO AMBIENTE PELO PROFESSOR

LEITURA DO AMBIENTE/DO CONTEXTO DO ENSINO
Ezequiel Theodoro da Silva
No artigo anteriormente publicado neste blog, tratei de duas leituras fundamentais a serem feitas pelo professor: a do ambiente/contexto da escola (sala de aula) e a dos seus alunos. Em realidade, essas duas leituras constituem a base para todas práticas de leitura a serem dinamizadas pelo professor através do processo de ensino e aprendizagem. Mais especificamente, a leitura do ambiente e a leitura dos alunos, conforme feitas pelo professor, agem como pressupostos ou condições para o sucesso do seu programa de leitura de textos e/ou outros materiais que lhe servirem de suporte para levar avante o seu trabalho.


Pois bem, ontem, domingo, dia 21 de março de 2010, o jornalista Gilberto Dimenstein colocou na sua coluna dominical da Folha de São Paulo um artigo chamado "Escola do Inferno", com uma interessantíssima ilustração: uma carteira de escola, com os quatro pés banhados por poças de sangue. No artigo, Gilberto relata e discute os resultados sobre o fenômeno do "bullying" nas escolas brasileiras, a partir de uma pesquisa muito refinada do CEATS (Centro do Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor), que ouviu 5.168 alunos de escolas das cinco regiões brasileiras, além de 14 grupos de discussão envolvendo pais, professores e gestores.

Antes de transcrever alguns pontos que nos mostra o jornalista, seria interessante relembrar aquilo que descrevemos a respeito da leitura do ambiente de ensino pelo professor: caso nesse ambiente imperar a "atmosfera de risco" - e não de confiança -, os alunos vão se "fechar" pelo efeito do medo, receio, pela inseguranças, etc... numa resposta natural ao autoritarismo, à agressividade, ao desrespeito, etc presentes nas situações. Por isso mesmo, os professores devem não apenas demonstrar competência para ler os sinais comportamentais do ambiente, mas agir, enquanto coletivo, no sentido de construir atmosferas democráticas, regidas pela confiança.

Dito isto, atente para alguns trechos contidos no artigo "Escola do Inferno":

"As agressões físicas e verbais entre alunos são generalizadas nas escolas públicas e privadas brasileiras, mas os adultos não sabem como reagir à violência, num jogo de empurra-empurra entre pais, gestores e professores.O resultado são estudantes inseguros...."

"Quanto mais frágil, mais a vítima (um portador de deficiência, por exemplo) é atacada, o que se explica por uma combinação de passividade com baixa autoestima..."

"(...) 70% dos alunos afirmam que viram, pelo menos uma vez, um colega sofrer algum tipo de agressão dentro da escola..."

"(...) 43% dos alunos afirmam que viram se sentem angustiados no ambiente escolar; 36% sentem medo com certa frequência; 10% estão sempre com medo."

"(...) gestores e professores atribuem parte da responsabilidade à família, nas qual ocorreria violência doméstica, negligência, falta de apoio emocional, ou seja, a criança já viria inoculada com o vírus da violência e descontaria nos colegas da escola os problemas familiares. Mas eles também reconhecem que NÃO FORAM TREINADOS PARA INTERMEDIAR CONFLITOS E NÃO SABEM COMO LIDAR COM AS FAMÍLIAS. Reclamam das salas super lotadas e da FALTA DE ESPAÇO PARA QUE OS ALUNOS EXPRESSEM SUAS EMOÇÕES E PROBLEMAS PESSOAIS."

"Todos {professores, pais, gestores) concordam (...): esse ambiente atrapalha a aprendizagem e desenvolve distúrbios nas crianças e adolescentes..." (grifos meus)

Não tenho dúvida de que a escola tem de impor limites, tem que mostrar a sua autoridade através da construção de ambientes favoráveis para a aprendizagem, ou seja, de ambientes regidos pela atitude de confiança e respeito mútuo. E os professores nunca devem perder a sua sensibilidade para ler objetivamente o tipo de atmosfera das salas de aula e da escola, inclusive abrindo espaços para que as crianças e jovens expressem os seus sentimentos (nunca é demais lembrar que todos nós somos, a um só tempo, RAZÃO E EMOÇÃO...). Sem enfrentar esse desafio com garra, gana e coragem, não somente os programas de leitura, mas os vários tipos de ensino propostos pela escola, podem morrer na praia.

As atmosferas de risco produzem: falta de concentração, mentira, agressividade, dificuldade de aprendizagem e medo de envolvimento com as atividades escolares.
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DIMENSTEIN, Gilberto. "A escola do inferno". IN Jornal Folha de São Paulo. 21/03/2010, p. C8.
 
Assista a um filme sobre o bullying. Clique aqui

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