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sexta-feira, 12 de março de 2010

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA - SHOW DE TEXTO

Eis a maravilha de texto que o amigo Affonso leu em Brasília, durante a abertura da Pré-Conferência do Livro, Leitura e Literatura. Imaginem a beleza do livro que será aberto com esse texto (no prelo Editora Global). Publico com autorização expressa do autor.



LER O MUNDO - Affonso Romano de Sant'Anna

Tudo é leitura. Tudo é decifração. Ou não.


Ou não, porque nem sempre deciframos os sinais `a nossa frente. Ainda agora os jornais estão repetindo, a propósito das recentes eleições, “que é preciso entender o recado das urnas”. Ou seja: as urnas falam, emitem mensagens. Cartola- o sambista- dizia “ as rosas não falam, as rosas apenas exalam o perfume que roubam de ti”. Perfumes falam. E as urnas exalaram um cheiro estranho. O presidente diz que seu partido precisa tomar banho de “ cheiro de povo”. E enquanto repousava nesses feriados e tomava banho em nossas águas, ele tirou várias fotos com cheiro de povo.


Paixão de ler. Ler a paixão.


Como ler a paixão se a paixão é quem nos lê? Sim, a paixão é quando nossos inconscientes pergaminhos sofrem um desletrado terremoto. Na paixão somos lidos `a nossa revelia .


O corpo é um texto. Há que saber interpretá-lo. Alguns corpos, no entanto, vêm em forma de hieroglifo, dificílimos. Ou, a incompetência é nossa, iletrados diante deles?


Quantas são as letras do alfabeto do corpo amado? Como soletrá-lo? Como sabê-lo na ponta da língua? Tem 24 letras? Quantas letras estranhas, estrangeiras nesse corpo? Como achar o ponto G na cartilha de um corpo? Quantas novas letras podem ser incorporadas nesta interminável e amorosa alfabetização? Movido pelo amor, pela paixão pode o corpo falar idiomas que antes desconhecia.

O médico até que se parece com o amante. Ele também lê o corpo. Vem daí a semiologia. Ciência da leitura dos sinais. Dos sintomas. Daí partiu Freud, para ler o interior, o invisível texto estampado no inconsciente. Então, os lacanianos todos se deliciaram jogando com as letras- a letra do corpo, o corpo da letra.


Diz-se que Marx pretendeu ler o inconsciente da história e descobrir os mecanismos que nela estavam escritos/inscritos. Portanto, um economista também lê a sociedade. Os empresários e executivos, por sua vez, se acostumaram a falar de " qualidade total". Mas seria mais apropriado falar de "leitura total". Só uma leitura não parcial, não esquizofrênica do real pode nos ajudar na produtividade dos significados. Por isto, é legítimo e instigante falar não apenas de uma "leitura da economia" , mas de algo novo e provodador a a "economia da leitura".


Não é só quem lê um livro, que lê.


Um paisagista lê a vida de maneira florida e sombreada. Fazer um jardim é reler o mundo, reordenar o texto natural. A paisagem, digamos, pode ter "sotaque", assim como tem sabor e cheiro. Por isto se fala de um jardim italiano, de um jardim francês, de um jardim inglês. E quando os jardineiros barrocos instalavam assombrosas grutas e jorros d’água entre seus canteiros estavam saudando as elipses do mistério nos extremos que são a pedra e a água, o movimento e a eternidade.


O urbanista e o arquiteto igualmente escrevem, melhor dito, inscrevem, um texto na prancheta da realidade. Traçados de avenidas podem ser absolutistas, militaristas, e o risco das ruas pode ser democrático dando expressividade `as comunidades.


Tudo é texto. Tudo é narração.


O astrônomo lê o ceu, lê a epopéia das estrelas. Ora, direis, ouvir & ler estrelas. Que estórias sublimes, suculentas, na Via Láctea. O físico lê o caos. Que epopéias o geógrafo lê nas camadas acumuladas num simples terreno. Um desfile de carnaval, por exemplo, é um texto. Por isto se fala de “samba enredo”. Enredo além da história pátria referida. A disposição das alas, as fantasias, a bateria, a comissão de frente são formas narrativas.


Uma partida de futebol é uma forma narrativa. Saber ler uma partida -este o mérito do locutor esportivo, na verdade, um leitor esportivo. Ele, como o técnico, vê coisas no texto em jogo, que só depois de lidas por ele, por nós são percebidas. Ler, então, é um jogo. Uma disputa, uma conquista de significados entre o texto e o leitor.


Paulinho da Viola dizia: ”As coisas estão no mundo eu é que preciso aprender”. Um arqueólogo lê nas ruínas a história antiga.


Não é só Scheherazade que conta estórias. Um espetáculo de dança é narração. Uma exposição de artes plásticas é narração. Tudo é narração. Até o quadro“ Branco sobre o branco” de Malevich conta uma estória.


Aparentemente ler jornal é coisa simples. Não é. A forma como o jornal é feita, a diagramação, a escolha dos títulos, das fotos e ilustrações são já um discurso. E sobre isto se poderia aplicar o que Umberto Eco disse sobre o “Finnegans Wake” de James Joyce: “ o primeiro discurso que uma obra faz o faz através da forma como é feita”.


Estamos com vários problemas de leitura hoje. Construimos sofisticadíssimos aparelhos que sabem ler. Eles nos lêem. Nos lêem,às vezes, melhor que nós mesmos. E mais: nós é que não os sabemos ler. Isto se dá não apenas com os objetos eletrônicos em casa ou com os aparelhos capazes de dizer há quantos milhões de anos viveu certa bactéria. Situação paradoxal: não sabemos ler os aparelhos que nos lêem. Analfabetismo tecnológico.


A gente vive falando mal do analfabeto. Mas o analfabeto também lê o mundo.`As vezes, sabiamente. Em nossa arrogância o desclassificamos . Mas Levi-Strauss ousou dizer que algumas sociedades iletradas eram ética e esteticamente muito sofisticadas. E penso que analfabeto é também aquele que a sociedade letrada refugou. De resto, hoje na sociedade eletrônica, quem não é de algum modo analfabeto?


Vi na fazenda de um amigo aparelhos eletrônicos, que ao tirarem leite da vaca, são capazes de ler tudo sobre a qualidade do leite, da vaca , e até (imagino) lerem o pensamento de quem está assistindo `a cena. Aparelhos sofisticadíssimos lêem o mundo e nos dão recados. A camada de ozônio está berrando um S.O.S , mas os chefes de governo, acovardados, tapam (economicamente) o ouvido. A natureza está dizendo que a água além de infecta, está acabando. Lemos a notícia e postergamos a tragédia para nossos netos.


É preciso ler, interpretar e fazer alguma coisa com a interpretação. Feiticeiros e profetas liam mensagens nas vísceras dos animais sacrificados e paredes dos palácios. Cartomantes lêem no baralho, copo d’água, búzios.Tudo é leitura. Tudo é decifração.


Ler é uma forma de escrever com mão alheia.


Minha vida daria um romance? Daria, se bem contado. Bem escrevê-lo são artes da narração. Mas só escreve bem, quem ao escrever sobre si mesmo, lê o mundo também.


8.11.2000 -O Globo ( Introdução ao livro LER O MUNDO, a sair pela Ed. Global)

8 comentários:

Anônimo disse...

Como nos faz pensar este texto!
Valorizar toda a forma de leitura é fundamental para nós que trabalhamos com os pequeninos que estão abertos ao novo e ansiosos por compartilhar seus conhecimentos.

Roghéria disse...

Quando Affonso Romano de Sant'Anna diz que uma partida de futebol é uma forma narrativa. Saber ler é uma partida - este é o mérito do locutor esportivo, na verdade, um leitor esportivo. Ele, como técnico, vê coisas no texto em jogo, que só depois de lidos por ele, por nós são percebidas. Ler, então, é um jogo. Uma disputa, uma conquista de significados entre o texto e o leitor.
Através deste comentário pude perceber e refletir mais sobre o que é realmente ler. Ler é uma atividade extremamente rica e complexa, que envolve não só conhecimento fonético ou semântico, mas também culturais e ideológicos. Pode ser um processo de descoberta, uma tarefa desafiadora, ou mesmo lúdica. Porém, será sempre uma atividade de assimilação de conhecimentos, de interiorização, de reflexão. Mais que decodificação, a leitura é uma atividade de interação, onde o leitor e texto interagem entre si, obedecendo a objetivos e necessidades socialmente determinados.

Moacir Romeu disse...

No mundo, tudo é leitura. Não são apenas palavras que dizem algo. Ações, intenções, movimentos... depende da leitura que se quer fazer, depende do rumo que se quer dar à imaginação, ou não.
Ler não pode ser uma ação instintiva, por reflexo, por obrigação ou por falta de algo mais “prazeroso” para o instante. Assim como os profissionais se dedicam ao cumprimento de suas tarefas e sentem prazer em realizá-las, também o deve fazer o leitor. Dedicar-se de forma prazerosa à prática da leitura. Só assim, lê-se por completo todos os símbolos, todos os signos, todas as palavras, todas as pessoas...
Ler é colocar a vida em prática. Tudo é leitura. Tudo pode ser lido. Se a sua história é um romance, um conto, uma narrativa, quem sabe, até uma crônica, não importa. Descobrir-se também é um tipo de leitura. E há quem diga que essa é a principal leitura que se pode fazer...

Darcileia disse...

Realmente o texto é belíssimo e nos faz refletir sobre as diversas possibilidades de leitura. Talvez a mais fácil delas seja ler a letra, o código alfabético, pois as outras leituras não exigem apenas decodificação, precisa haver amor, sensibilidade, leitura de mundo, de corpo, de olhar.
É preciso respeitar as particularidades de cada autor que escreve buscando se increver através das palavras.
Leia e Daniela

magda feijó weber disse...

"...ler o mundo também."

O que somos capazes de produzir, ou transformar com a leitura que fazemos do mundo? Isso pode determinar que tipo de pessoa você é. O mundo grita um apelo constante ao cidadão que assiste passivamente a violência, a guerra, a injustiça. Talvez, com o exercício de ler o que está por trás das palavras, possamos fazer a diferença, a começar por nós mesmos - professores - e divulgar e propagar mais os jardins do que a destruição. "Porque de amor para entender é preciso amar."

nana disse...

POR: Elaina Reioli Cirilo
Texto maravilhoso me emociono com palavras assim, me fez lembrar de algo dito por Luiz Henrique Gurgel , escrito amazonense e um dos principais nomes da literatura contemporânea, “Quem mais estimulou minha imaginação não foi um livro nem uma biblioteca. Foi a voz do meu avô. O primeiro livro que li foi um livro escutado. Foi uma narrativa oral.” Partilho com ele tal experiência, me lembro das histórias que meu pai contava, hoje ele as repete para minha sobrinha de 3 anos. Como professora de educação infantil e séries iniciais do EF, acredito que o professor tem um papel importante ao narrar histórias contribuindo para formar uma cultura escrita anterior a aquisição dos mecanismos de leitura/escrita.

Juliana disse...

Li o texto duas vezes, achei muito prazeroso.
"A leitura é um processo que envolve prazer, discussão, circulação de ideias e construção de (re) construção de sentidos".

bia disse...

No texto a leitura é apresentada repleta de emoção e traduz a visão de um letramento bem mais complexo do que decifrar códigos.
Nos leva a perceber o quanto que a leitura faz parte das nossas vidas e estão relacionadas ao nosso dia a dia e as nossas escolhas. A leitura só é significativa quando vai ao encontro do interesse do indivíduo.
O educador precisa levar em conta o que os alunos trazem consigo, a sua experiência pessoal adquirida no seu grupo social.
A experiência do saber deve estabelecer uma complementação que leve ao domínio de novos conhecimentos.
Conhecimentos em contínuo processo de construção, conhecimento numa ótica sociocultural e não individual, conhecimento prazeroso e por isso significativo, pautados numa leitura de mundo e não apenas na leitura das palavras.
A escola precisa estimular os alunos a fazerem todo tipo de leitura, pois somente a partir da interpretação de cada um é que poderemos avançar.