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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

ENTREVISTA PARA A REVISTA ISTO É - O que é ser professor hoje.

- O que é ser professor e o que esses profissionais são aptos a fazer?
A essência do ser professor é, no meu ponto de vista, a formação educacional das novas gerações. Além de facilitar acesso dos estudantes ao saber universal sistematizado, visando a sua aprendizagem no transcurso da escola, o professor proporciona o domínio de competências bem como a inculcação dos valores tidos como importantes para a convivência social.



- Quais são as possíveis áreas de atuação desses profissionais?
Múltiplas, desde a indústria até a intervenção em setores carentes onde a pedagogia deva se fazer presente. Entretanto, classicamente, a principal área de atuação dos professores é a escola, seja pública ou particular, da educação infantil à universidade.



- Quais são os caminhos (cursos) para a formação desse profissional?
Por lei, hoje em dia todos os professores devem possuir um diploma de ensino superior. Na universidade, ele cursa o bacharelado e, caso queira se profissionalizar como professor, deverá fazer o curso de licenciatura. Várias tentativas de formação básica tentam superar o esquema 3+1, ou seja, 3 anos de bacharelado e 1 de licenciatura - isto no sentido de evitar que a formação pedagógica continue como um apêndice para a área de conteúdo (bacharelado).



- A docência pode ser considerada uma profissão do futuro? Explique.
Sem dúvida que a informação transformada em conhecimento e o desenvolvimento de atitudes e valores são extremamente importantes na construção do futuro. Entretanto, numa previsão arrojada, acredito que os professores atuarão ao lado de outras agências sociais que talvez se coloquem na frente em termos de estímulo ao conhecimento e inculcação de valores, como é o caso, hoje em dia, da mídia e do próprio mercado. Dessa forma, creio eu que deverá haver uma transformação radical nos modos de ser professor e a principal delas talvez seja o desenvolvimento de condutas e a inculcação de valores.



- Quais são as principais tendências futuras para a profissão?
Difícil responder essa questão... estamos vivendo um tempo de aceleradas mudanças - as tecnológicas podem servir como exemplo disto. Por isso mesmo, a profissão professor vive momentos de crise e de indefinição, com um horizonte muito nebuloso em sua frente.



- Quais são as perspectivas futuras para os professores no Brasil?
Péssimas e pessimistas, no meu ponto de vista. Há um discurso (político) que enaltece a importância da educação, da escola e do magistério, mas esse discurso não se assenta - e nem tem continuidade no tempo - na forma de melhores salários, condições de trabalho, políticas concretas, etc Além disso, a formação dos professores foi extremamente banalizada e pulverizada por esquemas comerciais aligeirados de preparação e/ou por esquemas de ensino à distância completamente idiotizantes. Costumo dizer que os professores brasileiros que continuam na profissão são super heróis quando ainda conseguem ensinar ou então meros fantoches que apenas "tomam conta" dos estudantes sem ensinar absolutamente nada.



- Qual a base salarial desses profissionais? Professores de quais áreas são mais ou menos remunerados?
Há variações de estado para estado, de cidade para cidade. Entretanto, podemos afirmar que, pela responsabilidade que têm e pelo compromisso que assumem, a remuneração, na grande maioria das regiões, é extremamente baixa.



- Hoje, quais são os maiores empregadores desses profissionais?
O maior empregador é, sem dúvida, o Estado através dos governos federal, estadual e municipal.



- Quais os benefícios que a profissão proporciona (mencionar férias, possibilidade de dois empregos...)
Considerando a baixa remuneração dos professores, os benefícios geralmente se perdem no meio das carências existentes. Não resta dúvida que os meses de férias poderiam ser apontados como pontos positivos da profissão, entretanto o descanso hoje em dia também custa e os profissionais geralmente se recolhem, sequer podendo utilizar as suas férias para viagens, atualizações, aquisições de bens culturais, etc. A imagem nua e crua é de um profissional desvalorizado socialmente, sem dinheiro no bolso e empobrecido culturalmente - a Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anísio, tem lá boa dose de verdade.

- Quais os cursos de atualização mais indicados para os professores, de um modo geral, realizarem?
Com o empobrecimento da formação básica (universitária) dos professores, houve um desenvolvimento muito grande das políticas de formação "continuada". No meu ponto de vista, os cursos voltados ao incentivo da leitura, escrita e do estudo dos professores são imprescindíveis para uma recondução do magistério aos seus devidos eixos.

- A docência passou por mudanças significativas nos últimos anos? Quais são elas?
Eu diria que ela mudou para pior... daí, inclusive, os índices cada vez menores da demanda, o fechamento de muitos cursos por falta de interessados. Enquanto não houver no Brasil um enfrentamento rigoroso, ético, sério desse problema, o magistério vai andar de marcha ré ou vai patinar no mesmíssimo lugar. Infelizmente, diga-se, pois a qualidade da formação docente se reflete diretamente na formação dos estudantes e dos futuros profissionais que precisam tocar o país.



- Quais são os prós e contras em ser professor no Brasil?
Há mais contras do que prós atualmente. Um pró talvez seja aquele de o professor ler criticamente o besteirol que corre em sociedade e mostrar aos seus alunos a possibilidade de construção de um país diferente, menos injusto, mais ético. Um contra é, sem dúvida, o salário pago à grande maioria dos professores e as condições adversas para a produção de um ensino condigno nas escolas, principalmente nas escolas públicas.



- Qual o perfil (características pessoais) que os professores devem ter?
Eu citaria três: estoque ilimitado de capacidade de doação aos seus estudantes, compromisso com o conhecimento e sua transmissão, curiosidade epistemológica para atualização constante e criticidade para a leitura da realidade social onde ele ensina e atua.

- Qual o perfil dos professores brasileiros?
Explorados, esquecidos e com baixa dignidade profissional.

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